Escrito em 2001, 2 semanas após o ataque de 11 de Setembro, ao qual eu assisti ao vivo pela tevê. Entretando é um texto bastante imparcial. Só lendo para saber o quanto.
Devia ser no meio da tarde, o sol estava alto e não havia nuvens no céu. A brisa de sempre fora embora para o [...]

30 Ago 2008

Escrito em 2001, 2 semanas após o ataque de 11 de Setembro, ao qual eu assisti ao vivo pela tevê. Entretando é um texto bastante imparcial. Só lendo para saber o quanto.

Devia ser no meio da tarde, o sol estava alto e não havia nuvens no céu. A brisa de sempre fora embora para o mar e sequer restara o canto de qualquer pássaro. Mas havia um zunido, de uma mosca. Um velho maloqueiro estava sentado na esquina, bem no meio-fio, com as roupas empoeiradas e desbotadas. Tinha o rosto marcado pelo sol e pela vida de pobre. Sua ocupação estava sendo, naquele momento, dobrar um pedaço de papelão quantas vezes conseguisse. Não havia ninguém na rua para censurá-lo, nem para dar-lhe esmolas. A rua, que sempre fora movimentada por ter um Shopping, sequer tinha carros estacionados nela. Era vazia, tudo estava vazio. Para onde se olhasse via-se apenas concreto. Postes, calçadas, lojas, um posto de gasolina. Nenhum som de civilização. Nenhum ser humano para dar movimento àquilo, porque mesmo o velho maloqueiro estava sentado praticamente imóvel, mexendo apenas os dedos para dobrar e desdobrar o papel. Seus olhos eram vidrados e distantes, como os de um zumbi. E uma mosca comum sobrevoava-lhe a cabeça, zunindo em seu ouvido e pousando-lhe às vezes, esperando que ele morresse, quem sabe. Ela pousava em seus lábios e provocava uma coceira engraçada, mas ele tinha preguiça de coçá-los – ou estava ausente demais para perceber. Entretia-se com o pedaço pequeno de papelão que arrancara, não sabia quando, de um pedaço maior. Esse, o pedaço maior, que estava estatelado e inerte no meio da rua, outrora fora uma caixa. Assim, naquele pedaço do mundo tudo ia daquela forma: não indo.

Foi quando, se é que se pode dizer isso de um lugar atemporal, um brilho surgiu na extremidade da rua. Era um brilho forte que aumentava enquanto se aproximava. Com ele vinha o som de um motor. Era um carro velho e mal cuidado, que vinha devagar sem tempo a ganhar. O carro demorou a aproximar-se e parou no meio da rua, ainda distante do maloqueiro. Ouvia-se o barulho rouco do motor, às vezes engasgando, e os vidros a tremerem. Alguns minutos depois a porta do lado oposto se abriu e de dentro do carro saiu um sujeito. Era homem, de média estatura, rosto liso e cabelo desarrumado. Em sua testa havia pingos de suor e sua camisa barata estava desabotoada até o meio, suada nas costas e nos sovacos. Ele saiu meio que se espreguiçando e esperou ter estabilidade nas pernas para contornar o carro, este ainda ligado, e chegar até o maloqueiro. Estava com sandálias japonesas de borracha já gastas e andava arrastando os pés, com uma preguiça de dar sono. O sujeito franzia a testa e apertava as sobrancelhas por causa do sol e mal pôde perceber o papelão no meio da rua, que quase o fez escorregar. Recompondo-se rapidamente e praguejando um pouco ele calculou certa distância do velho maloqueiro – este tirara os olhos do pedacinho de papelão e fitava ainda inexpressivo o sujeito que saíra do carro.

- Para onde foram todos? – perguntou o sujeito com a voz abafada pelo silêncio, fazendo da mão uma viseira para melhor enxergar contra o sol.

O velho olhou-o pensativo, tomou fôlego e respondeu:

- A guerra levou! – fazendo cair por desleixo o papelão que segurava.

Inconformado o sujeito chutou o ar timidamente e retornou ao carro, desta vez demorando um pouco menos…mas só um pouco. Bateu a porta duas vezes para fechá-la e o carro morreu quando foi acelerar. Tentou denovo. Acelerou, passando por cima do papelão, que tentou pegar carona para fugir daquele lugar inóspito mas logo desistiu.

E o velho continuou sentado no meio-fio da calçada, maloqueiro, esperando o dia em que alguém lembrasse de dizê-lo o que havia acontecido ali.