Em novembro de 2004, por um breve momento, me senti inspirado. Passou depois da primeira sentença, mas escrevi até o fim.
Inspirou. Nele não havia vida até então, era penas um objeto, ali esquecido. Agora era um ser, que podia respirar e pensar. Ter uma mente era assustador, principalmente quando tudo o que ele conhecia foi [...]
Em novembro de 2004, por um breve momento, me senti inspirado. Passou depois da primeira sentença, mas escrevi até o fim.
Inspirou. Nele não havia vida até então, era penas um objeto, ali esquecido. Agora era um ser, que podia respirar e pensar. Ter uma mente era assustador, principalmente quando tudo o que ele conhecia foi o que houve há apenas um minuto. Estava só, num cubículo escuro e fedorento. Como se tivesse sido abandonado há décadas, o quarto abrigava muita poeira e mofo, e nem mesmo os insetos ali residiam. Assim estava o resto do prédio também. O acordado – este que de vos contei agora a pouco – mal poderia conceber que tipo de prédio era aquele. Afinal, ele mal poderia distingui-lo de uma caverna.
Como num ato instintivo, procurou por luz, e acabou por encontrar o lado de fora. O dia estava claro e o sol o incomodava bastante, mas ao mesmo tempo fazia ele se sentir vivo. Ter vida era assustador. Ele não sentia fome, nem sede. Apenas respirava. Respirar é o bastante para se sentir e estar vivo. Sentou-se numa mureta, ainda nos domínios do prédio onde nascera, e olhou ao redor. Alguns anos já haviam se passado desde sua Inspiração, desde que se moveu pela primeira vez, levantou-se da mesa onde estava e caiu no cão. Com muito custo, aprendeu a andar, trôpego e lento. Foi depois disso que encontrou o salão principal do prédio, onde um dia havia enormes paredes de vidro por onde entrava a arrebatadora luz do sol. Seguiu por ali e agora se encontrava na mureta que outrora fora o muro daquele hospital. Estava escrito numa placa de ferro enferrujada logo abaixo de seus pés: “Hospital Memorial”, se ele pudesse ler.
Olhou o sol, a terra, só poeira e pedras. Olhou para si. Expirou. Era a única coisa movente naquele lugar. Por quê? Isso o intrigou, e sentiu um comichão. O que era aquilo, de ser, de se mover, e refletir? Inspirou. Fechou os olhos. Continuava existindo. Dormiu.
Veio a chuva, que o molhou, e ele procurou abrigo como quando procurou pelo sol ao acordar. A chuva lavou a poeira, as pedras. A chuva fez um som diferente do vento. Era bravia, retumbante. Sentiu seu corpo todo agitar. Queria ser a chuva, potente e eufórica. Correu para fora do prédio e deixou-se banhar por ela, pisando nas poças que respondiam ao seu movimento, e dançou contente interagindo com toda ela. Não estava só. Havia movimento. Olhou o negro céu clarear e abriu bem a boca, sem saber o porquê, como se sua alma fosse sair por ela. Gritou. Assustado, correu de volta para casa, engasgado com a água. E a chuva se foi. Nunca mais voltou. Estava só, vivo.
Sentia um comichão na barriga. Inspirou, expirou. Inspirou profundo. Parou. Quando voltaria a chuva? Para ele, o acordado, ela era outra vida que se manifestava ali no deserto. Podia se lembrar de quando ela viera visitá-lo. E somente a partir de então, ele percebeu que cada dia que nascia e morria, era promessa de que ela viesse novamente. Esperou e dormiu.
Nasceu o dia. Amontoou mais uma pequena pedra no canto da sala. Contou todas elas. Seu monte estava aumentando e a chuva não voltava. Sentia sede daquela água que arranhou-lhe a garganta e interrompeu seu clamor. Assim fazia planos, antes e depois de dormir.
Havia uma porta de ferro que ele nunca havia conseguido abrir. Quando a parede caiu, a porta foi junto, e o acordado explorou aquele novo ambiente. Ali não havia novidades, porém uma escada que alcançava o mais alto andar do hospital. Seguiu por ela e encontrou novas salas, novos objetos. Vieram-lhe mais comichões e ele subiu correndo até deparar-se com o último andar. Nele já não havia mais teto, e sua vista alcançava o horizonte. O deserto de pedras e poeira era como se infinito. E no meio dele, outro prédio. O acordado arregalou os olhos de surpresa. Desceu correndo as escadas, de volta à entrada do hospital, para certificar-se do fato. Não estava lá. O deserto havia diminuído e não havia prédio algum, a não ser aquele que era sua casa. Intrigou-se e por um momento cogitou se o prédio oposto podia haver se escondido. Subiu novamente os vinte andares do hospital e mais uma vez avistou a construção, ao longe, quase sendo engolida pelo enorme sol alaranjado.
E se a chuva tivesse errado o caminho e foi parar no prédio oposto? Ela estaria só, sem ninguém para conversar. Pior, e se houvesse outro que, como ele, vivo, estivesse dançando com ela naquele exato momento? Sentiu ciúmes. Respirou fundo. Partiu.
Munido de apenas um fôlego, correu pelo deserto de pedras e poeiras, que um dia foram casas, lojas, apartamentos, caixas de pessoas ocupadas. Ecoava em sua mente a música da água alvejando as pedras e o chão. Do único urro de liberdade que aquelas terras presenciariam em sua eterna existência. Mas não encontrou o prédio, nem a chuva. Não sabia onde estava.
O acordado se perdeu no deserto da civilização defunta. Anos depois ele suspirou e dormiu. E naquele suspiro fugiu-lhe a vida, desgostosa de ser. Acabaram a inspiração e o sonho.
Dois mil anos antes, o homem sonhou com a vida artificial. E apesar de todos os esforços, esta nunca chegou a ser, mas apenas existir. Até que o homem se foi, legando apenas um objeto inerte sobre uma mesa, e com ele se foi sua medíocre compreensão do possível.













