Esse foi o título de um dos conceitos propostos na pós-graduação em Artes Visuais. Eu entendi esse conceito não somente como uma situação de escassez de materiais, mas como a própria fragilidade do suporte. Dessa forma me ocorreu que um dos suportes artísticos mais frágeis é o papel. Esse, que é tão presente não só no cotidiano de todos, mas no ato artístico de muitos. Para muitos desses, o papel é só um meio, serve para esboçar suas idéias. Para outros, é um suporte para pinturas como aquarelas ou ilustrações. Mas acredito que o potencial do papel e uma amostra de sua fragilidade está muito mais presente quando ele é usado para criar objetos artísticos tridimensionais.

Dragão

Um grande exemplo disso é o origami. A arte oriental de dobraduras com o papel alcançou níveis incríveis. Podemos ver peças cuidadosamente trabalhadas, com detalhes incríveis, realizadas a partir apenas de um pedaço de papel. São construções muito bem elaboradas e planejadas com esforço e disciplina, representando desde complexas figuras geométricas a criaturas fantásticas como dragões chineses (e suas escamas!).

Tais dobraduras seriam praticamente impossíveis de serem realizadas por um ser humano se fossem usados materiais mais espessos, portanto só o papel (um tipo de papel seda especial, mais fino) é capaz de se transformar dessa maneira. Eu recomendo que vocês dêem uma olhada nos trabalhos fantásticos de Dinh Giang. São esculturas em papel, seguindo uma linha de “origami ocidental”, à grosso modo. Seus trabalhos são cheios de personalidade.

Ainda há o kirigami, que é uma vertente que usa não só dobraduras mas também cortes (“kiri”, do japonês “cortar” e kami, “papel”). Basta adicionar uma tesoura e as coisas ficam muito mais complexas, tiras frágeis se soltam do papel junto com a imaginação do artista, formando imagens ainda mais tridimensionais. Alguns artistas cujo trabalho conheci recentemente costumam quase que literalmente “erguer” suas obras do papel. Eles fazem os cortes mas não eliminam as áreas desusadas, mostrando ao espectador de onde vieram aquelas formas. É o caso do dinamarquês Peter Callesen.

Peter Callesen

A japonesa Leila Nishi também impressiona, usando várias camadas para representar paisagens e cenas do cotidiano.

Leila Nishi

Ferry Staverman trabalha mais com o papel cartão, mas suas peças adquiriram formas bastante orgânicas. Inclusive nessa foto é mostrada uma de suas peças, exposta em meio à natureza.

Ferry Staverman

E ainda há o magnífico trabalho designer brasileiro Carlo Giovani. Vocês podem não ter ouvido falar dele, mas certamente viram seu trabalho pois está sendo muito utilizado pela publicidade. Um dos mais recentes é uma animação para um comercial da ElmaChips (disponível também no site do artista). Contudo eu o citei não somente pela maneira criativa com que ele mistura a escultura em papel com a ilustração, mas pela maneira como ele apresenta isso. Algumas de suas obras, experimentais ou comerciais, são apresentadas em uma etapa incompleta. A idéia é fazer com que você mesmo monte a obra, construa o boneco a partir de recortes e colagens simples.

Carlo Giovani

Isso é parte de um movimento que vem crescendo bastante, a chamada Toy Art. Nesse caso, os bonecos de papel são os mais comuns pela facilidade com que são compartilhados os moldes – e você além de montar o boneco, pode personalizá-lo. Em outros casos, por exemplo, os bonecos são comprados “em branco”, personalizados e revendidos como objetos de arte.

Eu já havia mencionado em um comentário nesse fórum sobre a liberdade que os suportes simples proporcionam. É justamente isso, o papel é um dos suportes industrializados mais simples, e por isso ele proporciona tanta liberdade às criações artísticas. Contudo, nesse sentido é bastante frágil.

A fugacidade do papel (que não resiste bem ao tempo e interpéries) é importante para essa liberdade. Hoje o artista modela uma figura humana, amanhã o mesmo papel pode ser remanipulado e se transformar em uma outra figura. O criador tem liberdade não só ao parir a idéia, mas ao afastar-se completamente dela e seguir outro caminho.

Paper redigido para fins avaliativos na pós-graduação em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo SENAC-AL.

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